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Narrativas de mistério com traços de terror – Língua Portuguesa – 8º ano (EF) dezembro 19, 2011

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 Narrativas de mistério com traços de terror – Língua Portuguesa – 8º ano (EF)

Apresentação

Em novembro de 2011, os alunos e os professores de Língua Portuguesa do 8º ano elegeram as doze narrativas de mistério com traços de terror que viriam a público para representar a produção das três classes (8ºA, 8ºB e 8ºC), marcando a finalização de um processo de trabalho que teve início ainda no primeiro semestre.

Ao longo desse processo, além de recuperarem alguns elementos e recursos utilizados na construção de atmosferas de terror já presentes em seu repertório, os alunos leram, discutiram e analisaram alguns textos “exemplares”: vários contos selecionados das Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe; O médico e o monstro, de R. L. Stevenson; O fantasma de Canterville, de Oscar Wilde; As formigas, de Lígia Fagundes Telles; Frankenstein (opcional), de Mary Shelley; O fantasma da ópera (opcional), de Gaston Leroux e O cão dos Baskerville (opcional), de Conan Doyle. Também estudaram a estrutura da narrativa padrão bem como sequências discursivas  ─ suas características e suas finalidades.

Na elaboração do projeto de seu próprio texto, os jovens autores pensaram bastante em como selecionar e combinar os elementos e recursos narrativos em busca da produção de sentidos pretendidos. Após duas ou três versões/reescritas feitas sob a orientação dos professores, os textos foram lidos por todas as turmas de 8º ano.

Todos os autores ─ presentes ou não nessa “coletânea” ─ estão de parabéns pela boa vontade e avanços conseguidos.

 

Isabel Cabral – professora de Língua Portuguesa

Marcel Pires – professor auxiliar de Língua Portuguesa

 

Narrativas (títulos)

Os portões do cemitério

Entre músicas e gritos

A moça do quadro

O vilarejo

Os olhos da morte

Carta reveladora

O açougueiro de Tapachula

Pequenas almas

Caderno da morte

O pacto

A casa mal-assombrada


 

Entre música e gritos dezembro 19, 2011

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Entre música e gritos

 

Por Marco Magli e Pedro Henrique S. Domingues

 

— Nós vamos subir neste palco e vamos botar pra quebrar! — gritou Frank, o vocalista da banda.

Exatamente às 22 horas do dia seis de agosto de 1981, eles subiram ao palco, que estava todo escuro. A plateia já gritava enlouquecidamente o nome da banda, “The Vampires”. E quando as luzes se acenderam, tornou-se possível visualizar um mar de pessoas que lotavam o Alltel Stadium, na cidade de Jacksonville.

O maior sucesso da banda, a música “Red Blood”, começou a ser tocada. O solo do famoso guitarrista Saul e a rapidez das batidas da bateria de Dave, mais conhecido como “Black Out”, levaram o público ao delírio. O baixista, Roberto, fazia suas famosas caretas enquanto tocava com perfeição.

Porém, em uma performance de Frank, a música começou a se repetir e, em questão de segundos, o público  percebeu que o show era playback e que o disco estava riscado. Os fãs ficaram furiosos e começaram a jogar latas e garrafas de cerveja nos músicos.

Sujos de cerveja e de sangue, eles desceram rapidamente do palco.

— Eu disse que isso não daria certo! — disse Saul muito irritado, apontando seu longo dedo para Frank.

— Você sabe o que não dá certo? É essa banda que não dá certo! — berrou Frank raivoso.

— Eu estou fora! — gritou o vocalista e saiu em direção à sua Ferrari, deu a partida e cantou os pneus, quase atropelando um funcionário da produção. Após a saída de Frank, resolveram acabar de uma vez por todas com a banda.

Todos pararam de tocar e gastaram tudo o que tinham em suas contas bancárias, principalmente com mulheres e bebidas. Trinta anos depois, não tinham mais dinheiro algum e voltaram a morar com seus velhos pais em cidades do interior.

— O telefone tocou — Filho, venha cá, é a gravadora Roxy no telefone procurando por você! — gritou a mãe de Saul, enquanto tapava o bocal do telefone com a mão.

— Alô? — disse Saul.

— Aqui é Rick Bob, o produtor da gravadora Roxy. Você poderia comparecer à nossa sede amanhã às 15 horas? Temos uma surpresa para você!

— Claro. — afirmou Saul.

O produtor ligou para os outros ex-integrantes da banda, convidando-os para a mesma reunião e todos aceitaram.

No dia seguinte, na hora marcada, Rick os esperava à porta do enorme prédio. Após 10 minutos de conversa com os músicos sobre como estavam, todos se encontraram na sala de reuniões. Rick lhes apresentou a proposta: reagrupar a banda para gravar um CD com 13 novas faixas, porém com um detalhe, as músicas deveriam ser compostas em um castelo na Transilvânia, o que fazia parte de um projeto de marketing da gravadora. Cada um ganharia um milhão de dólares mais um percentual sobre cada exemplar vendido. Eles teriam que embarcar em uma hora. Sem pensar muito, os integrantes assinaram o contrato.

Chegando a Bucareste, no aeroporto de Baneasa, um mordomo já os aguardava para levá-los ao longínquo castelo. Seu nome era Ygor. Ele era velho, careca e corcunda, vestia uma capa preta e se apoiava em uma bengala de cedro. Todos estavam muito cansados e ainda teriam que fazer uma viagem de carro de muitas horas. Ninguém conversou nada durante o percurso, mas, enquanto dormiam no carro, o mordomo os examinava detalhadamente. Observou que Frank era alto e seu longo cabelo era tão negro quanto a escuridão que reserva o mais profundo túmulo.

Chegando à frente dos enferrujados portões de entrada do grandioso castelo, um estrondoso trovão os acordou e, quando abriram os olhos, viram uma íngreme serra que os levaria ao castelo. Rodeado por uma espessa névoa, o mordomo então os avisou:

— O castelo está cercado por lobos famintos. — Quanto mais se aproximavam do castelo, mais a chuva engrossava.

O carro parou perto da porta principal do castelo. Ao desembarcarem, ouviram o uivar de lobos. A primeira impressão deles, ao entrarem no castelo, foi de uma arquitetura medieval. Havia um grande salão, com uma enorme lareira e cabeças de animais empalhadas nas paredes. Depois desse breve reconhecimento do local, foram conhecer seus aposentos. Logo se deitaram nas camas e nem perceberam a decoração em estilo gótico do ambiente.

Nas primeiras três semanas tudo ocorreu como o esperado. Compuseram cinco músicas. Entretanto, em uma noite fria e chuvosa, os músicos se encontravam à frente da lareira e Ygor, como já havia feito todas as suas tarefas, perguntou-lhes se queriam ouvir uma lenda e todos aceitaram.

Ele se sentou em um banco à frente da lareira e lhes contou uma lenda sobre um vampiro, Lorde Vlad, que teria morado naquele castelo. Dizia-se que ele era um homem muito rico e influente e que mandava seus servos empalarem todos os condenados à morte na Romênia. Mandava também drenarem seu sangue, que ele bebia em um cálice de cristal, enquanto os via morrer de hemorragia e se retorcerem de dor. Alguns diziam que ele estaria enterrado ali mesmo, em um túmulo subterrâneo.

— Mas isso é só uma lenda. — finalizou Ygor.

Todos se divertiram com a história e falaram que era uma grande besteira, menos Black Out, que não parava de pensar na lenda. Era possível notar certa apreensão em seus olhos. Ele continuava tocando no assunto todo o restante da noite.

Eles apagaram a lareira e, então, foram para seus aposentos. O baterista deitou em sua cama e ficou lá, rolando de um lado para o outro por cerca de duas horas. A história não saía de sua mente. Por isso, ele se levantou e foi à biblioteca para ler um pouco mais a respeito. Chegando lá, selecionou vários livros sobre o assunto e os leu com uma rapidez descomunal, porém algo em um deles lhe chamou a atenção: havia um mapa da parte subterrânea do castelo e, nesse mapa, estava marcado o local onde Lorde Vlad estaria supostamente enterrado. Black Out decorou as indicações do mapa e, com uma vela na mão, foi averiguar se a lenda era real.

Ele seguiu as instruções do livro e encontrou um alçapão que o levaria ao subsolo. Seguiu aproximadamente 200 metros de corredores estreitos e, segundo o mapa, chegou ao local onde o corpo do vampiro estava. Ele abriu lentamente a pequena porta e viu um caixão vazio, com uma vela acesa ao lado e um retrato do Lorde na parede. Muito curioso, desceu uma escada para examinar melhor o quarto, e, quando descia, a porta fechou-se repentinamente. Com o bater da porta, todos os músicos acordaram e, logo após esse estrondo, ouviram um grito seco. Pensaram que fosse uma espécie de ave noturna e voltaram a dormir.

Na manhã seguinte, os músicos comentaram sobre o misterioso som da noite anterior e estranharam a ausência do baterista, por isso foram procurá-lo e, como sabiam que sua diversão favorita era ler, foram à biblioteca. Lá encontraram os livros sobre o vampiro e o mapa abertos. Como eles o conheciam muito bem, sabiam que ele teria ido atrás do túmulo. Então, pegaram o mapa e seguiram rigorosamente as instruções, até chegarem ao quarto do caixão. Abriram a porta e conseguiram avistar o mesmo que o baterista avistara. Todos desceram e, quando iam examinar a área, um relâmpago deixou o quarto muito claro e todos fecharam os olhos. Segundos depois, encontraram o corpo lívido do baterista deitado no caixão.

Apavorados, eles saíram correndo. O último a subir a escada foi Roberto, o baixista, que sentiu seu pé sendo puxado para baixo. A porta do alçapão foi fechada e trancada rapidamente. Imóveis, ouviram o grito do colega que tinha se atrasado. Depois disso, saíram correndo rumo à sala central.

— Vamos bolar um plano para matar esse vampiro. — disse Frank — Vamos descer lá com colares de alho e crucifixos. — Saul sentiu um certo receio, mas aceitou a ideia do vocalista.

Na mesma noite, os músicos se prepararam e desceram novamente àquele quarto sombrio. Antes de abrir a porta, Frank pôs a mão nos ombros de Saul e disse:

— Nós podemos até morrer nesta aventura, mas nossa grande amizade sempre viverá!

Havia algo de errado com o olhar de Frank, mas Saul estava tão nervoso que nem reparou. Suspiraram e abriram a porta ao mesmo tempo. O guitarrista foi o primeiro a entrar naquela lúgubre sala. Logo depois foi Frank. Estava muito escuro e úmido, a vela se apagou momentaneamente e, quando reacendeu, Ygor estava segurando os braços de Saul. Frank retirou uma adaga de seu cinto e a enfiou lentamente no peito do músico, que nem se debateu muito e logo fechou seus olhos castanhos. O mordomo o largou no chão.

Ygor apagou a vela e os dois foram até o salão principal. Lá, Frank entregou um envelope para Ygor e lhe disse com um enorme sorriso no rosto:

— Meus 30 anos de puro planejamento deram certo! Você se saiu muito bem interpretando Rick Bob, por isso merece o que contém esse envelope. Eu espero que você não tenha muito trabalho para limpar a sujeira.

— Senhor, se me permite fazer uma pergunta, por que tinha tanto ódio dos seus colegas de banda?

— Antes de nosso último show em Jacksonville, eu os ouvi combinando de acabar com a minha performance. Então, riscaram meu disco de playback, porém eu era muito ingênuo e achei que fosse uma brincadeira deles. Mas não foi. Eles mancharam meu nome. Depois daquilo, eu nunca mais pude sair na rua sem que alguém apontasse para mim. Desde então, vim planejando a minha vingança e hoje é o dia mais feliz de minha vida, pois eu os matei. Aliás, meu carro está na porta?

—Sim, senhor.

—Você não vai contar isso para ninguém, vai?

—Não, senhor.

—Mas eu não confio em você.

Depois dessa fala, Frank tirou uma arma de seu coldre de couro de jacaré e deu um único tiro na testa de Ygor. Abriu a porta do castelo e foi correndo para o carro. Quando ele passou pelos portões, a vela ao lado do caixão reacendeu.

A Moça do Quadro dezembro 19, 2011

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A Moça do Quadro

 

 Por Stella Barnabé, Amanda Jentof e Gustavo Bechara

 

O que eu vou contar agora é um fato. Eu e meu já falecido criado cometemos um grande erro: o de ficar na mansão por mais de 24 horas. Desde então eu me escondo, porque, ao certo, nem eu sei bem o que aconteceu.

Eu estava na carruagem, indo para minha recém-comprada mansão. Chovia muito e o caminho estava alagado. A mansão ficava em uma vila quase deserta. Além da casa, habitava a vila um pirata manco e aposentado, Carlos Garsules, que trabalhava como guarda da vila. Eu ia ter uma primeira visão da casa, ficaria dois dias nela, por isso estava acompanhado somente de meu criado favorito, Mount. Ele era baixo, nem gordo nem magro, tinha olhos castanhos e cabelos pretos, além de um rosto jovem. Às vezes, aparentava ser mais jovem do que era, 24 anos. Naquele momento, ele olhava fixamente para a janela, por onde escorriam as gotas da chuva.

A viagem não durou muito. Em um piscar de olhos, eu e Mount já estávamos em frente à magnífica mansão, ou eu deveria dizer mansão mal-assombrada. Ela era muito antiga e branca, porém escurecida pelo tempo. Ao lado da casa, havia um grande lago. No meio do lago, via-se uma pequena ilha de pedras com uma cruz e uma placa de pedra, com os escritos apagados pelo tempo. Eu e meu criado estávamos pasmos perante aquele cenário de terror.

A carruagem havia nos abandonado, não tínhamos mais como voltar de lá.

­–– Depois de alguns ajustes, aposto que ela ficará nova em folha, senhor.

­–– Sim, sim. –– respondi.

Nós dois andávamos com malas na mão, na chuva, caminhando em direção à nossa morte. Quando estávamos quase na porta de entrada, avistei um vulto baixo e gordo. Ao chegar mais perto, vi que ele estava na escada da porta de entrada, debaixo de um guarda-chuva, como tinha visto antes. Ele realmente era baixo e gordo, com cabelos castanho-claros e uma careca no topo da cabeça. Tinha um bigode castanho-escuro e sua feição estava amarrada, como se estivesse nos esperando há uma década.

–– Finalmente vocês chegaram. Sr. Montegrande e seu criado, é claro, Mount, não é? –– Foi interrompido por uma tosse, que, depois, descobri que se repetiria inúmeras vezes. Mount apenas acenou com a cabeça enquanto eu cumprimentava o homem.

­­–– Eu sou –– tossiu –– o Sr. Bordis, Otonis Bordis –– e tossiu novamente –– o vendedor da mansão –– dessa vez tossiu, mas, ao olhar para a mansão, sentiu um calafrio e revelou um olhar de terror. –– Estou tentando vendê-la há anos, mas nunca achei ninguém que fosse tão burro –– tossiu novamente, e tirou um lenço de seu bolso para assoar o nariz –– quero dizer, que estivesse disposto a comprar.

–– E por que isso, Sr.Bordis? –– perguntei.

–– Ah, nada demais, sabe? Como a casa está meio, hã… decaída, as pessoas não querem comprar. Nada demais, nenhuma –– tossiu –– morte. Aceitam um? –– perguntou, pegando alguns charutos em seus bolsos e nos oferecendo. Acenamos com a cabeça que não, enquanto o observávamos acender um de seus vários charutos. Deduzi que desse vício vinha sua tosse.

–– Pois bem, ­–– dizia enquanto tirava o charuto da boca para tossir — eu vim aqui para trazer as chaves da casa. — Enquanto tossia, tirava de um de seus vários bolsos do casaco um molho de chaves — A maior é a de entrada, a menor é a da porta dos fundos e a menor de todas é a do porão. — explicou enquanto se afastava de nós.

— Não quer entrar para tomar um chá? — perguntei com a intenção de obter mais informações de Sr.Bordis sobre a casa.

— Não, não, obrigado. Aproveite a mansão, Sr.Montegrande! Adeus —com isso, virou-se e começou a andar em um passo apressado. Quando o vi pela última vez, ele estava correndo em direção a uma carruagem que nós nem tínhamos visto quando chegamos.

Essa foi a primeira de muitas visões aterrorizantes que tivemos. Se você acha que o interior da casa compensaria o exterior, está completamente enganado. O interior era vinte vezes pior. O papel de parede estava descascando, poltronas e sofás com molas para fora, mesas e cadeiras com pés a menos e havia pó em tudo. Havia também estantes de livros, mas outros livros estavam dispostos em pilhas que iam até o teto, espalhadas pela casa. A escada que daria para os quartos estava destruída, barrando a passagem para o primeiro andar. Teias de aranha cobriam o lugar, janelas quebradas, cortinas escuras e pesadas. A única luz que havia era a das velas que acendemos ao entrar.

Largamos nossas malas na entrada, o que levantou uma camada de poeira. Estávamos quietos, andando e observando a casa enquanto cruzávamos com as pilhas de livros. Mas o que realmente me chamou a atenção foram duas paredes repletas de retratos. A primeira parede tinha retratos até o chão, a segunda tinha apenas até a metade. As molduras eram todas douradas. Todos os rostos eram sérios, como se algo trágico tivesse acontecido. Entretanto, dentre tantas faces perfeitamente retratadas, a que mais me chamou atenção foi a de uma mulher, uma bela moça loira com cabelos cacheados caindo sobre seus ombros e que tinha olhos cor de céu. Ela era linda. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Mount interrompeu meus pensamentos.

— Acho que teremos que dormir na sala, vou preparar o sofá para o senhor e eu dormirei no chão.

— Não tem necessidade, Mount. Vamos revezar, uma noite eu durmo no chão e, na outra, você.

O dia passou rapidamente, Mount arrumou nossas “camas” e eu passei a tarde procurando em livros a identidade da bela moça de cabelos loiros. Infelizmente, minhas tentativas não foram bem sucedidas. Meu novo lar não era tão aconchegante quanto eu havia imaginado, especialmente pelo fato de ser muito escuro. A luz era escassa, pois as velas estavam apagando e, além disso, não tínhamos muita comida, só pão e queijo.

Exausto e faminto, resolvi tomar um banho e pedi para Mount preparar pão com queijo para comermos. Tínhamos que racionar alimento. No dia seguinte, Mount iria fazer compras em um mercado próximo. Enquanto ele estivesse fora, eu continuaria minha busca pela moça que havia tomado minha atenção. Novamente, fui tirado de meus pensamentos, mas dessa vez Mount estava quieto, alguém tinha batido à porta.

— Mas quem será que vem a uma mansão como essa nessa hora da noite? — perguntei. Como resposta, Mount deu de ombros e se levantou para atendê-la.

A figura que entrou em meu lar era um senhor baixo, aparentava ter uns 75 anos, tinha cabelos, bigode e barba brancos e seus olhos eram pretos como a noite. Estava com uma garrafa de rum na mão. E era manco de um pé, na verdade, olhando melhor, ele tinha uma perna de pau. Usava roupas esfarrapadas e se podia ver uma tatuagem em sua nuca, uma foice.

— Boa noite, senhores. Sou Carlos Garsules, o guarda noturno — sua voz soou como unha ao arranhar uma lousa, o que me deixou um pouco atordoado.

— Sou Amountson e esse é meu criado, Mount.

— Muito bem, estou aqui todas as noites há 30 anos. Se precisarem, podem me chamar — foi essa a frase que destruiu toda minha vida, foi a minha curiosidade que tudo destruiu.

— Há 30 anos? Isso é muito tempo. Entre, Carlos. Talvez você possa me ajudar, há algo que tenho interesse em descobrir.

— Claro, senhor. Talvez eu possa ajudá-lo — respondeu-me enquanto entrava em casa e me seguia. Atrás dele, vinha Mount com uma expressão ainda mais curiosa que a minha.

Paramos em frente ao quadro da bela moça de cabelos loiros e, nesse instante, eu fiz a pergunta.

— Você sabe a identidade desta bela moça?

Um sorriso malicioso se formou no rosto de Carlos.

— Ah! Sim, a Sra. Mary Dougan. Uma história engraçada ela guarda, sabe, bem interessante… Quando ela se mudou para a mansão, eu ainda era jovem, tinha acabado de começar a trabalhar aqui. Ela veio com seu marido, Pietro Dougan, eles eram recém-casados. E compraram a casa com a intenção de criar uma nova vida.  Pena que essa vida não durou muito… Ambos morreram dois meses depois. O corpo do Sr Dougan foi encontrado na cozinha, em chamas, e a Sra. Dougan, pobre dela, suicidou-se, estava alucinada desde o primeiro dia na casa, dizia que era mal-assombrada e que queria ir embora, que era um “lugar demoníaco”. Isso mesmo, pois bem, matou-se a facadas. Foi encontrada em seu quarto.

Eu e Mount ficamos paralisados, fitando-o. Logo depois, nosso olhar se voltou à bela moça que, nesse momento, havíamos descoberto se tratar de Mary Dougan.

­— Mas é de costume ocorrerem mortes nesta casa? — arrisquei-me a perguntar.

— Essa casa, ela é, digamos, diferente. Ela guarda algo poderoso, mas horrível. Bem, isso é tudo, tenho que ir proteger a vila. Boa noite, senhores.

Ele dizia isso indo em direção à porta e, quando chegou perto dela, eu podia jurar ter visto um brilho em seus olhos e um sorriso ainda mais malicioso que o anterior. Logo após, ele fechou a porta e saiu andando, deixando-nos novamente sozinhos na casa. Proteger a vila? Só nós moramos nela… Havia outras mansões, mas estavam desertas. Na verdade, a vila parecia uma cidade abandonada.

Naquela noite, dormi muito mal, acordei várias vezes durante a noite, tive pesadelos nos quais Mount queria me matar. Um sinal, logicamente, de que ele iria me matar para roubar meu dinheiro. Desde então, fiquei com os olhos bem abertos. Todo movimento era suspeito, todos os seus afazeres poderiam ser uma forma de me matar, comida envenenada, facas na cozinha, móveis caindo. Tudo era motivo de suspeita.

Só consegui me sentir seguro quando ele saiu para fazer compras, mas, ainda assim, mantive-me cauteloso. As armadilhas poderiam estar em qualquer lugar. Foi nesse instante que ouvi alguém batendo à porta. Fui abri-la, é claro, mas se deveria ter feito isso? Obviamente não.

Quando abri a porta, vi uma pequenina garota em minha frente, seus cabelos escuros estavam presos em uma trança e tinha olhos pretos pouco aconchegantes. Usava um vestido que ia até um pouco abaixo de seus joelhos e carregava uma cesta. Em seu vestido, via-se um broche ao lado do ombro esquerdo, um broche que me fez lembrar muito de Carlos, um broche com o formato de foice.

— Olá, senhor, meu nome é Lúcifer. Você gostaria de comprar um biscoito? — a voz da garota era doce, mas parecia falsa, como se pudesse me esfaquear pelas costas.

— Olá, Lúcifer, sinto muito, mas não posso comprar seus biscoitos, não tenho dinheiro em casa. E estou muito ocupado com as coisas aqui dentro — respondi meio mal-humorado.

— Tudo bem, senhor. A sua casa é muito bonita. Quando era abandonada, eu vinha aqui. Ficava no porão o dia inteiro. Era como se fosse a minha casa — senti raiva quando a garota disse “minha casa”, mas, como de costume, ignorei.

— A casa tem um porão? — perguntei curioso.

— Tem sim, senhor, na escada tem uma pequena portinha que dá passagem para o porão. Bem, adeus, senhor, tenha um bom dia. — despediu-se a garota com um sorriso irônico.

Quando fechei a porta e entrei em casa, tentei ao máximo me distrair, mas as palavras de Lúcifer continuavam ecoando em minha mente, como se eu devesse ir até o porão. Tomado pelo meu maior defeito, a curiosidade, fui até a portinha que dava para o porão. Estava destrancada. Desci uma escada em caracol e, finalmente, cheguei ao local. Ele estava encardido. Parecia mais uma prisão, havia uma corda do lado de um pilar e muita palha. Estava escuro, deduzi que, à noite, seria necessário acender uma tocha.

Foi aí que comecei a planejar o assassinato. Ele ia pagar por tentar me matar. Ele ia se juntar aos outros. Saí correndo do porão ainda formulando o plano em minha mente.

A noite estava chuvosa, o que não ajudaria meu plano, mas também não o impediria. Enquanto eu terminava de repassá-lo em minha mente, deparei-me com um espelho, fiquei horrorizado com o que vi. Meus olhos, que um dia já haviam sido negros, agora estavam escarlates. Meus cabelos, que uma vez foram pretos e sedosos, estavam espetados e cinza. O que tinha acontecido comigo? Não tive nem tempo de pensar. A vítima tinha chegado.

— Mount, preciso de sua ajuda, tenho que checar o porão.

Sem dizer uma palavra, Mount me seguiu. Como um cachorrinho, prestes a morrer. Na entrada do porão, peguei uma tocha e a acendi. Abri a porta e, enquanto descíamos a escada em caracol, pude notar a presença de aranhas e fungos. E aí apareceu. A última janela, dali não teria saída. Observei a chuva escorrendo pelo vidro, como se alguém estivesse chorando. Nesse único momento, senti remorso e pensei em voltar, mas não. Fui tomado pela ira, com mais força do que nunca.  Quando chegamos ao porão, imobilizei-o, prendendo-o com uma corda no pilar, fazendo-o perceber o que estava acontecendo. Ele começou a suplicar por liberdade, mas eu o ignorei. Joguei palha em cima dele. E, depois, a tocha. Ouvi seus gritos de dor, e vi o fogo se atiçar.

Estava saindo quando vi Lúcifer no fogo. Mas ela estava se transformando, seus cabelos pretos formavam um capuz que lhe cobria o rosto. Estava envolvida em um manto preto e segurava uma foice. Era a Morte. Ao seu lado esquerdo, encontrava-se Carlos Garsules, mas ele tinha chifres, estava vermelho e segurava um tridente. Era a figura do Diabo. Extremamente maléficos e assustadores, ambos riam

Aterrorizado, saí correndo. O fogo me seguia. Ao parar diante da parede de retratos, gritei ao avistar Mount. Foi nessa hora que entendi tudo, lá estavam todos que haviam morrido na casa, a casa da Morte.

Enquanto saía correndo, o fogo cobria aquela casa maldita. E a bela moça de cabelos loiros cacheados chorava lágrimas vermelhas, a cor do sangue.

O vilarejo dezembro 19, 2011

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O vilarejo

 Por Pedro Oliveira

O jipe cruzava as terras áridas do deserto da Síria, levantando grãos de areia e centenas de pequenos pedregulhos, espalhando-os pela estreita estrada de terra batida. O dia estava quente e ensolarado, sem a presença de nuvens no céu azul.

Dentro do jipe, os soldados americanos já estavam se preparando para chegar a um pequeno vilarejo, até então pouco conhecido pelos estrangeiros. O tenente Miller estava comandando a missão, cujo objetivo era encontrar armamentos nucleares escondidos pelo governo iraquiano. Para ele, aquela era mais uma das tentativas desesperadas dos Estados Unidos em dar um propósito àquela invasão de milhares de soldados.

— Nunca estive tão confiante para uma missão como esta. É minha chance de brilhar — o arrogante sargento Washington repetira ao longo de toda a viagem, que já chegava a quatro horas.

Segundo o GPS do tenente, o vilarejo estava a trinta quilômetros de onde o jipe se encontrava. Era a hora de preparar os equipamentos. Ele avisou os sargentos Harris, Smith, Washington e Williams, que dirigia. Os militares carregaram as armas e o resto dos equipamentos. Faltavam dez quilômetros. Eles já avistavam o vilarejo ao longe, uma série de pequenas construções de pedra escondidas naquele deserto quente e arenoso. Miller percebeu uma agitação em si mesmo e nos colegas. Agora, restavam apenas cinco quilômetros. Uma névoa espessa se aproximava.

— Este local é muito estranho. Tem alguma aura sinistra por aqui. Muito estranho… — Desta vez, Smith reclamava. Ele era quem sempre via perigo em tudo, fugia até de baratas. Mas, naquele instante, o sargento tinha razão. O local realmente era sinistro.

Mais à frente, já perto das pequenas casas de pedra, gigantescas nuvens cinzentas indicavam ao longe que uma tempestade se aproximava. O vento balançava o jipe blindado. Smith não parava de repetir em sussurros:

— Muito estranho, muito estranho, muito estranho…

— Caramba! Dá para você calar essa boca? — interrompeu Williams, irritado — Tenha um pouco mais de concentração. E fique quieto, já chegamos.

O jipe passava pelos pequenos portões de madeira do vilarejo, entrando em uma rua estreita que parecia ser a via principal, onde, aparentemente, ficava o mercado. Miller tomou um susto: aquela rua, que era muito longa, encontrava-se completamente deserta, não havia sinal de um único ser vivo.

— Agora, realmente, está muito estranho! — exclamou o sargento Williams, sem perceber o que tinha dito, mas com toda razão em dizê-lo.

O fato de o vilarejo estar deserto não era o pior. O problema era que não havia o menor sinal de abandono: as barracas dos comerciantes estavam todas na rua, com todos os tipos de produtos pendurados nas vigas das vendas. As barracas dos que vendiam comida exibiam todos os tipos de espetos de carne em cima de suas grelhas, já praticamente carbonizados.

O vilarejo havia sido despovoado durante o dia, quando tudo estava funcionando, como se os moradores tivessem fugido de algum perigo no meio de suas atividades cotidianas.

Williams parou o jipe no meio da rua e todos desceram, armados até os dentes e muito ressabiados. Não havia sons, nem movimentos. Apenas o barulho do vento e das botas dos soldados batendo no chão de terra.

— Gente! Venham ver isto! — berrou Harris, em um volume desagradavelmente alto. Aquele moleque era muito insolente, pensou Miller.

Os soldados andaram em direção ao sargento e levaram um susto com o que viram: um buraco de aproximadamente um metro de diâmetro, suficientemente grande para que um homem inteiro pudesse entrar. O túnel descia até onde não era mais possível ver.

— Não vamos entrar nisso. Não é? — Smith perguntou. Estava extremamente nervoso — Não parece uma boa ideia.

— Claro que não! — Williams respondeu asperamente, irritado com a estupidez de Smith. — Vamos nos dividir e procurar por pessoas nas casas. Cada um por si, para ser mais rápido. Antes que aquela tempestade caia. —ordenou, apontando para o céu.

As nuvens estavam chegando cada vez mais perto. Era a maior tempestade que Miller já vira. O vilarejo não seria capaz de aguentar aquela quantidade de água sem inundar. A ideia de Williams não parecia a mais prudente, mas dadas as condições, era a melhor de que dispunham.

— Então, faremos isso — Miller começou a dar ordens aos soldados — Nos encontramos aqui mesmo quando a tempestade já estiver em cima de nossas cabeças.

Eles se despediram, desejando-se sorte, e partiram cada um em uma direção. Miller seguiu para o norte, entrando em vielas extremamente estreitas e olhando para dentro das casas. Estavam vazias, a maioria com aqueles buracos estranhos no chão. A situação era alarmante. Com certeza, a mais estranha da vida daquele experiente tenente. Ele já participara de inúmeras batalhas e tiroteios e já vira muitos amigos morrerem ao seu lado, mas aquilo era o limite. Não era só o que ele estava vendo que o deixava preocupado, mas o que ele sentia também o estava assustando. Era um sentimento de pânico que lhe corroía por dentro. Alguma coisa sobrenatural acontecera com aquele vilarejo. E estava prestes a se repetir com ele mesmo.

Aquele último pensamento foi o máximo que ele pôde aguentar. Miller saiu correndo em direção ao ponto de encontro, gritando pelos soldados, para que o seguissem. Não houve resposta. E se alguma coisa lhes tivesse acontecido? Ele já estava chegando à rua principal. Avistou o jipe. Correu mais ainda. Estava quase chegando. Quase. Faltava pouco. Muito pouco.

Finalmente, o tenente alcançou o blindado e abriu a porta do motorista. Entrou no carro e fechou a porta. Seu coração já estava quase pulando pela boca. Ficou tentando se acalmar e olhando para os lados, para ver se avistava algum de seus companheiros. Depois de alguns minutos, ouviu um grito.

Ao olhar para o lado, Miller viu Harris correndo e berrando, em direção ao jipe. O sargento também estava apavorado. O tenente destrancou as portas para deixá-lo entrar, mas algo aconteceu. Um buraco, igual a todos aqueles que havia na cidade, abriu-se sob Harris. Uma mão — aquilo não era uma mão humana — agarrou seu pé e o puxou para baixo.

Miller não podia mais aguentar. A chuva estava começando a cair em pequenas gotas. O tenente deu a partida no jipe e manobrou em direção aos portões. A chuva estava cada vez mais forte. Raios caíam em todos os lugares. O jipe já cruzava os portões a toda velocidade. Quando já havia se afastado bastante do vilarejo, Miller olhou para trás. Dezenas de raios caíam em cima do vilarejo.

O tenente estava exausto e triste por ter abandonado seus companheiros naquele lugar horroroso. Ele não teve tempo para pensar, pois, de repente, ouviu um barulho estrondoso e assistiu, com muita surpresa, à terra se abrir onde havia o vilarejo, que agora era engolido pelas profundezas.

Os olhos da morte dezembro 19, 2011

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Os olhos da morte

 

                                                   Por Ana Luisa A. Torres e Georgia Biagioni

 

Depois de andar o que parece quilômetros, você finalmente vê um sinal de vida humana: uma pequena aldeia a alguns passos de distância. Deve ser um bom lugar para morar. Principalmente se comparado com aquele inferno de onde você acabou de sair. E eles queriam que você chamasse aquilo de casa…

Você está prestes a cruzar a fronteira da cidade, quando alguma coisa acontece. Claro, não podia ser tão perfeito. É um estranho: usa uma capa, com um capuz que cobre completamente seu rosto. Sua estranha pele parece levemente esverdeada. Sob a luz do luar, ele parece até um personagem misterioso de alguma história de terror que contavam quando você era pequeno.

“Se dá valor à sua vida, fique longe deste lugar.” Ele diz de repente, e sua voz é áspera e sibilante.

“Ah, claro.” Você responde ironicamente. “Obrigado por me avisar.”

Você o ignora e cruza a fronteira da cidade. Espera alguns segundos e, como nada acontece, vira-se para lhe dar outra resposta sarcástica; mas o encapuzado não está mais lá. O único ser vivo próximo é uma cobra verde-esmeralda, com alguns padrões vermelhos e uma pena na cabeça.

Espere, uma pena na cabeça?

“Que lugar estranho.”, você diz para si mesmo. Em seguida, espanta a cobra. Você caminha um pouco e nota que as nuvens estão começando a escurecer. É melhor achar um lugar para se abrigar antes que a chuva caia.

- * -

            A luz do sol começa a entrar pela janela. Você acorda cedo, como de costume. O quarto que a bondosa dona da estalagem lhe deu é simples, mas confortável.

“Estalagem… Que coisa antiga.” Você pensa, decidindo dar uma volta para conhecer melhor a vila.

A vila tem poucas casas, e menos pessoas ainda. Elas parecem se esconder quando você passa, mas você consegue reparar rapidamente na aparência de algumas. Há uma mulher com cabelos castanhos e olhos amarelos, por exemplo. Não âmbares, como a maioria dos seres humanos com essa cor de olhos, mas realmente amarelos, como os de um gato.

Você continua andando, e então nota uma coisa estranha: todas as pessoas que você viu até agora têm os mesmos olhos amarelos daquela mulher. Não pode ser uma coincidência.

Você começa a achar que realmente há algo estranho nesse lugar.

Em um bar ali perto, você decide pedir uma informação. Pergunta a alguém se existe algo importante a saber sobre a história da cidade. Um homem grande, que parece estar há várias noites sem dormir, vira-se para você. Sua resposta áspera é:

“Por que alguém ia querer saber algo sobre essa cidade?”

Mas, em seguida, ele lhe entrega um papel com algo anotado, aparentemente de má vontade. É um endereço de uma biblioteca. Você, quase instantaneamente, decide visitá-la.

- * -

            É uma noite tempestuosa. Até parece que todo dia chove nesse lugar, ou talvez você só esteja sem sorte. Você sempre foi meio azarado mesmo.

A biblioteca é sombria e empoeirada, parece não ser visitada há muito tempo. Os livros dão a impressão de serem relíquias: são grandes e de capa dura, com páginas amareladas. A maioria dos títulos sugere longas e tediosas horas de leitura.

Isso não tira seu entusiasmo, nem o bibliotecário que aparece em seguida, com grandes óculos quadrados como seu rosto e pretos como seu terno. Você se prepara para o pior, mas ele é muito simpático,  mostrando uma seção com livros de História. Lendas e mitos, Criaturas mitológicas, todos falam sobre mitos e o folclore da cidade.

Todos dizem algo em comum: informações sobre uma grande cobra, o rei das serpentes. Extremamente mortífera, tem diversas formas de matar, sendo a mais temida simplesmente direcionar um olhar para a vítima. Um dos livros traz até uma citação de que ‘o basilisco é tão cruel que, quando não consegue matar animais com a sua visão venenosa, vira-se para as plantas e para as ervas aromáticas e, fixando o olhar nelas, seca-as.’* Você subitamente lembra-se daquela cobra que viu ao entrar na cidade. Será que está de alguma forma relacionada com isso? E aquele estranho?

Um trecho o atrai: explica que o basilisco, originando-se de um ovo de galo chocado por uma rã, tem uma crista de galo e/ou uma pena na cabeça para representar sua realeza. Aquela cobra tinha uma pena na cabeça! Mas ela era de um tamanho normal.

Apesar de ter feito várias descobertas sobre basiliscos, você não entende qual é a relação de tudo isso com a história da cidade. Então, em meio à luz crepitante da única vela que ainda está acesa, um livro perdido no amontoado de estantes lhe chama a atenção. É velho e sujo, parece ter sido muito maltratado. Na capa, uma bela aquarela sobreviveu ao mofo: um grande basilisco. Suas escamas têm matizes de vermelho, verde e roxo, delineadas com dourado. Curiosamente, a criatura possui asas escamosas como as de um dragão.

À medida que folheia as páginas gastas, você vai ficando cada vez mais aterrorizado. O que aquele livro estava fazendo ali? Ele continha um segredo terrível, que deveria estar muito bem guardado.

Você se levanta bruscamente e começa a procurar por algo. Em seguida, passa rapidamente pela porta. A tempestade está cada vez pior. Levando o espelho que você arrancou da parede sem que ninguém visse,  toma uma decisão que mudará para sempre a sua vida.

*Leonardo Da Vinci

Você corre até a floresta. É um lugar sinistro, cheio de plantas que parecem intrusas nesse mundo, com mais sombra do que as copas das árvores deveriam proporcionar. Você facilmente acha a caverna, úmida e repleta de formações muito pontudas. Você começa a ter uma sensação inexplicável de medo; talvez tenha algo a ver com aquelas pedras brancas que cobrem o chão como se fossem ossos. Você segura o espelho com mais força.

Você escuta um barulho e se vira. É aquele homem de novo: o encapuzado que você encontrou ao entrar na cidade.

“O que você pensa que está fazendo aqui?!”, ele exclama com raiva.

Agora, você o olha de um jeito diferente, pois já conhece toda a história por trás daquele homem.

Você responde que já sabe tudo sobre ele e sobre a história da cidade, enquanto tenta se aproximar o suficiente para tirar-lhe o capuz…

Mas ele mesmo o faz.

Seu rosto tem a pele esverdeada e aparenta possuir escamas.  Sua boca é de um vermelho vivo e dela saem presas que, para você, parecem gigantescas. Seus olhos são amarelos e suas pupilas são um feixe contraído no centro de suas íris. Você sabe que não pode encará-los, mas olha de relance e sente enorme desconforto. Segura o espelho na sua frente. Mas a criatura fecha os olhos, dizendo com sua voz áspera:

“Antes de qualquer coisa, deixe que eu conte a minha versão da história”

-*-

Caminhava pela floresta, procurando caça para minha família. Achei uma caverna e resolvi entrar. Não havia alma viva no local, que era sombrio e assustador, mas a razão é simples: o único ser vivo ali presente explica por que os outros animais mantinham distância. Eu era apenas um garoto medroso.

Decidi ir embora, mas, quando me virava, ouvi um ruído às minhas costas. Olhei para trás e a vi: uma cobra gigantesca. Logo a identifiquei: era o basilisco. Aterrorizado com a visão do monstro, esperei a minha morte. Mas algo aconteceu. O olhar mortal do ser não me afetou. No mesmo momento, senti uma transformação em mim e percebi que estava amaldiçoado.

Olhei para minhas mãos. Verdes e escamosas. O que estava acontecendo? Estaria eu me tornando uma cobra? Olhei para o monstro e subitamente pude ouvir a sua voz em minha mente:

Meu veneno não o afeta,

como eu terá de ser

Sozinho e solitário,

os que ama terão de sofrer

Entendi que seria condenado à vida de meio humano, meio cobra, mas não tinha ideia do que estaria por vir. Voltei para a cidade correndo, e, ao chegar lá, amaldiçoei a minha própria existência. Todos se contorciam e gritavam, tomados pela dor. Momentos depois, seus olhos eram amarelos e a felicidade havia sido tirada de seus semblantes.

Corri para casa. Sem saber a dimensão do que havia acontecido comigo, procurei por minha mãe. Ela me fitou com olhar de dúvida em seus olhos amarelos, e, antes que pudesse explicar-lhe qualquer coisa, vi-a contorcer-se e gritar diante de mim. Eu a havia matado com o meu olhar.

-*-

Você não pode deixar de sentir pena ao ouvir o relato. Mas tinha de terminar o que havia começado. Inconscientemente, começa a chorar e levanta o espelho.

“Faça essas pessoas pararem de sofrer e lhes dê o que merecem”, você ordena.

Solenemente, ele encara o espelho, sabendo que merece a própria morte. Ele cai no chão. Você sente culpa, logo seguida, alívio. Abaixa-se para ter certeza que ele está morto. Mas um lampejo de vida ainda resta em sua alma e, ao encarar seu olhar, você sente imensurável dor. Sabe que sua vida também termina ali.

-*-

A cobra rasteja para fora a fim de ver o que está acontecendo. Encontra o garoto morto e sabe que agora poderá sentir o ar fresco novamente. Sai da caverna e vai em direção à cidade. Todos aqueles corpos mortos lhe trazem culpa. Ninguém havia restado, todos eram ligados vitalmente ao menino. Mas que diferença faz? São apenas algumas vidas a mais condenadas pela sua existência.