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Diferença, encontro e poder das relações na Escola pós pandemia

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Home Notícias da Escola Gracinha Diferença, encontro e poder das relações na Escola pós pandemia

A escola sempre foi espaço de convivência entre diferentes. A própria história da inclusão na educação se confunde com a do Gracinha, que sempre se comprometeu a trabalhar articulando a singularidade de seus(suas) alunos(as) aos desafios do coletivo a partir da escuta, do afeto e também dos limites. Após quase dois anos de isolamento, como tem sido o papel da escola na retomada da experiência de grupo e no acolhimento de nossas crianças e jovens? O Setor de Apoio do Gracinha convida vocês a uma reflexão sobre a tarefa de educar no “pós-pandemia”. Confira a íntegra do texto abaixo:

“Inspira, respira, não pira!”

Diferença, encontro e o poder das relações na escola “pós-pandemia”

 

Olho e sou visto, logo, existo.

(D. W. Winnicott)

 

“Depois da tempestade, vem a bonança”, diz a sabedoria popular. Será? Estamos quase no ansiado momento de “pós-pandemia”, o qual ocupou nossas fantasias nos dois últimos – e longos! – anos.  Retomar o espaço de corpo presente, o nosso direito de ir e vir, a nossa rotina, a volta às escolas, ao cinema, à rua, aos bares e restaurantes, aos dates eram distantes sonhos que temos lutado para trazer de volta. É possível voltar? Passamos por incalculáveis perdas e mortes: de entes queridos, de grandes ídolos, de instituições, de lugares e estabelecimentos, de liberdades, de privacidade, de rituais… Mortes dentro e fora de nós.

Cada um atravessou esse banzeiro com seu próprio barco, singular, ainda que o trauma fosse coletivo. O que aconteceu com a gente?  Mudamos? Adultos, crianças, jovens, professores, alunos… O tempo correu para todos, mas não contou para ninguém. Por isso, ficamos ainda mais diferentes, mas ninguém sabe. Bom, está na hora de dar a saber.

A escola, importante bastião da experiência pública e da convivência coletiva em nosso tempo, sempre teve como desafio a lida com as diferenças. Isso porque sempre foi território do encontro, único fenômeno capaz de trazê-las à luz. Diferença e encontro caminham juntos, pois se cada ser humano é único, haverá sempre discrepâncias ao juntarem-se dois ou mais representantes da espécie, e isso é fundamental para nos constituirmos. Está aí uma das grandes riquezas da escola, pois é nela que a criança e, mais tarde, o jovem entram em contato com modos de ser até então desconhecidos. Essas novas referências são absorvidas, misturadas às antigas e, batidas em nosso “liquidificador subjetivo”, constroem renovadas possibilidades de estar no mundo.

É claro que toda essa construção na diferença pressupõe conflitos. Os conflitos são esperados e significam uma etapa importante do aprendizado, bem como um ponto de partida para a transformação dos sujeitos na escola, desde que não se tornem barreiras para o crescimento dos alunos. Em razão disso, sabendo que trabalhamos com crianças e jovens, ainda em formação, e que muitas diferenças já foram motivo de exclusão na história humana e da educação, criamos condições para que o Gracinha seja um espaço seguro e assistido pelos adultos para cada um manifestar suas diferenças e compreender a diferença dos outros.

Esse trabalho de constante revisão das práticas, de estabelecimento de bordas e limites, de acolhimento e escuta dos alunos já era desafiador antes da pandemia, quando acompanhávamos as mudanças de perto, no dia a dia. Agora, no entanto, tem se tornado ainda mais complexo. Cada um seguiu se transformando em isolamento, a experiência coletiva da escola ficou distante e, depois de um período tão duro e cheio de sofrimentos, estamos todos novamente ocupando o mesmo espaço. Quem são esses alunos que passaram quase dois anos em casa? Aliás, quem somos nós? Como são mesmo as regras de convivência nos espaços comuns? Qual a responsabilidade de cada um?

Há uma angústia de todas as partes em face desse retorno presencial e da volta à lida com todas essas diferenças desconhecidas. Estamos nos “re-conhecendo”: alunos, equipe escolar, famílias, sociedade… Nada mais normal em um período pós-traumático, cujos sentidos e significados do mundo ficam embaralhados. Percebemos nas crianças e nos jovens esse estranhamento nas formas de sofrimento, ansiedade, apatia, euforia, tristeza, indiferença, pressão, cobrança, agitação, questionamentos etc. Entretanto, também identificamos a potência do encontro em acontecimentos e conflitos que foram escamoteados pelo lado solitário e, por vezes, (des)confortável do ensino remoto.

É justamente nesse momento que nós, adultos-educadores-famílias, precisamos inspirar, respirar – não pirar – e oferecer a nossas crianças e jovens alguma referência de mundo possível, alguma noção de permanência e continuidade. Quando uma criança pequena se machuca e ainda não tem a representação de tempo-espaço organizada no psiquismo, ela fica desesperada e chora como se aquele sofrimento fosse durar para sempre. São os adultos que, com sua experiência, ensinam a ela que aquela dor não será eterna, que o seu sofrimento “vai passar”. A criança se acalma, não em razão de qualquer mudança sensorial e objetiva, mas porque aquele que conhece mais aquele mundo a ajuda a circunscrever um lugar para a sua dor.

É verdade, os alunos estão diferentes – nós estamos diferentes! –, e ainda não sabemos exatamente como. Tudo isso tem gerado inquietação e aparecido de muitas formas no ambiente escolar. Contudo, o papel da escola é oferecer, por meio da palavra, do afeto e das ações do adulto-educador, uma perspectiva de futuro possível para todos, uma referência. Reconhecer o sofrimento e legitimá-lo, mas ajudar a dar a ele um contorno, um limite, uma noção de finitude. Mostrar que há um “depois”, um pós-tempestade, um trabalho a ser feito, uma esperança. Assim, seguimos renovando o mundo com o apoio do que sabemos do passado e abrindo espaço para o vigor das novas gerações, que vêm sacudindo a compreensão das diferenças na escola e nos quatro cantos do globo.

Compreendendo que atravessamos essa tempestade e que nos transformamos profundamente com ela, consideramos fundamental que todas essas diferenças que foram produzidas sejam encaradas como potência para nossa construção pessoal e coletiva. Nessa direção, seguimos firmes na tarefa de zelar pela escola, transformando-a diuturnamente em um lugar seguro, assistido e pactuado pela confiança, no qual haja espaço para a convivência na diferença e os conflitos, em vez de tornarem-se barreiras, possam ser trabalhados como mais uma etapa da aprendizagem.

 

Escrito por: Maurício Walter Moura

Contribuição: Juliana Davini

Matheus Ienaga

Simone Burse

Equipe do Setor de Apoio à Aprendizagem e à Participação

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